Há inúmeros artigos sobre como o Tiktok está mudando (ou já mudou) o gosto pessoal em beleza e moda, sobre consumo excessivo, sobrecarga sensorial e saúde mental, mas ainda não vi ninguém abordar esse assunto sob a perspectiva das viagens.
Recentemente, me deparei com uma publicação onde alguém declarou que não gostava de Budapeste.
BUDAPESTE? A cidade que eu amo?
Ela escreveu sobre a crescente discrepância entre suas expectativas e a realidade, e sobre como a Budapeste que via online não correspondia à Budapeste que conhecia pessoalmente. E isso me fez pensar: quando foi a última vez que algum de nós planejou uma viagem sem o TikTok?

Turismo viral
Toda cidade europeia sempre teve suas armadilhas para turistas: barracas de souvenirs vendendo os mesmos ímãs, vendedores ambulantes oferecendo os mesmos passeios e filas intermináveis para aquele ponto turístico “imperdível”. Isso faz parte da experiência.
Visite os clássicos, tire a foto clichê, faça um pouco de turismo, mas depois explore outros lugares. A verdadeira beleza de uma cidade está em vê-la através dos olhos autênticos de seus habitantes. A experiência genuína se encontra nos momentos que você compartilha com eles.
Nosso gosto pessoal em viagens tornou-se excessivamente dependente de métricas de desempenho: do que é popular, fotogênico (instagramável) ou propício ao engajamento. Levamos toda essa bagagem digital para cidades que não nos devem nada.
Você não gostou da sua viagem porque não confiou na sua própria curiosidade para planejá-la, e isso não é culpa de Budapeste.
A culpa é do TikTok?
Me apaixonei por esta cidade seguindo meu próprio ritmo: demorando em cafeterias até que as conversas me encontrassem, batendo papo com estranhos sentados em uma praça, encontrando rostos familiares duas vezes na mesma noite e comendo meu langos favorito. Montei meu roteiro por intuição e pesquisa própria, não por influência.
Esquecemos como viajar com curiosidade. Confundimos o desejo de viajar com estratégia de conteúdo. Em vez de deixar um lugar se revelar para nós, recriamos os mesmos vídeos que nos convenceram a ir, os mesmos vídeos do tipo “venha comigo a este lugar secreto” que já não são mais secretos.
Mas, para deixar bem claro: não há nada de errado em usar o TikTok, o Instagram ou o Pinterest para planejar uma viagem. Eu também faço isso. E agradeço aos criadores que postam e guiam o roteiro.
Às vezes, preciso de ajuda para preencher as lacunas de um itinerário que a intuição sozinha não consegue completar, e adoro ver o que outras pessoas acharam bonito ou especial.
Além disso, a realidade é que você não vai amar todas as cidades, e isso é totalmente normal. O que estou sugerindo é o seguinte: não deixe que uma tendência dite o seu gosto. Deixe que ela o guie para um lugar que valha a pena explorar e, então, fique tempo suficiente para que o lugar se torne seu.
Porque viajar, em sua essência, não se trata de coletar conteúdo, mas sim de coletar experiências. Trata-se de voltar para casa com uma percepção mais apurada, e não apenas com novas fotos.
Quando você para de se preocupar com a aparência ideal de um lugar, finalmente começa a perceber como se sente. Você começa a entender que o encantamento não é algo que se encontra, é algo que se pratica.
O TikTok e a nova era do turismo
Nos últimos anos, o TikTok se consolidou como uma das plataformas mais poderosas do mundo digital. Ele não apenas dita tendências de moda e consumo, mas também transforma a forma como escolhemos nossos destinos de viagem.
Vídeos curtos, com trilhas sonoras envolventes e imagens perfeitas, despertam em nós o desejo instantâneo de visitar lugares que talvez nunca estivessem no nosso radar.
Antigamente, a inspiração vinha de blogs, revistas ou indicações de amigos. Hoje, basta um vídeo viral para transformar um vilarejo isolado em um ponto turístico global. E esse poder é inegável: o algoritmo do TikTok tem a capacidade de criar destinos “must-see” quase da noite para o dia.
De fato, muitas cidades já perceberam esse fenômeno. Lugares como a Islândia, Algarve, Amalfi, Santorini e Bali viram o número de visitantes disparar após se tornarem tendências no aplicativo. E, enquanto isso é ótimo para o turismo local, também traz desafios, especialmente quando o visitante vai em busca da “cena perfeita” em vez da experiência real.
Como o TikTok molda as expectativas
O TikTok estimula um comportamento baseado em recompensas rápidas: deslizamos, curtimos, salvamos e compartilhamos — quase sem refletir. Esse formato afeta diretamente como criamos expectativas sobre nossas viagens.
Os vídeos de “lugares secretos” ou “roteiros imperdíveis” costumam mostrar o melhor ângulo, a luz ideal, o filtro certo. Mas raramente mostram o que há por trás: as filas, o calor, os preços altos ou o impacto ambiental causado por tanta exposição.
Consequentemente, muitos viajantes chegam a um destino esperando viver uma versão cinematográfica da realidade. E, quando a experiência real não corresponde, surge a frustração.
Além disso, o fenômeno das “viagens virais” tem outro efeito colateral: a homogeneização da experiência turística.
De Bali a Barcelona, de Lisboa a Tulum, os vídeos seguem o mesmo padrão, as mesmas poses, mesmas músicas, mesmos “spots”. É como se o mundo inteiro estivesse sendo visitado pelo mesmo olhar.
O algoritmo e a curadoria invisível das viagens
O algoritmo do TikTok não é neutro. Ele seleciona o que vemos com base em nossas interações, tempo de visualização e preferências. Isso significa que nossas escolhas de viagem estão sendo moldadas por uma curadoria invisível.
Se você passa tempo assistindo a vídeos de praias, o aplicativo vai inundar seu feed com ilhas paradisíacas e resorts tropicais. Se interage com vídeos urbanos, verá uma sequência de rooftops, cafeterias minimalistas e museus.
Aos poucos, acreditamos estar escolhendo livremente mas, na verdade, estamos sendo direcionados.
Esse comportamento cria um ciclo: viajamos para o que vemos e depois postamos o que já é popular, alimentando o mesmo padrão. Assim, os destinos menos conhecidos continuam invisíveis, enquanto as “famosas viagens do TikTok” se tornam saturadas.
O impacto real nos destinos turísticos
O TikTok não apenas muda o comportamento do viajante, mas também o próprio destino. Cidades pequenas e frágeis, que antes recebiam poucos turistas, agora enfrentam superlotação. Vilarejos da Itália, Japão e Indonésia relatam problemas de infraestrutura e descaracterização cultural devido à explosão de visitantes influenciados pelas redes.
Por outro lado, esse mesmo poder pode ser incrivelmente positivo quando usado com responsabilidade.
Vídeos que mostram turismo sustentável, destinos menos conhecidos e experiências culturais autênticas ajudam a descentralizar o turismo e distribuir melhor o impacto econômico.
Diversos criadores conscientes têm usado o TikTok para promover formas mais éticas de viajar — incentivando o respeito às comunidades locais, o consumo responsável e a valorização da história por trás de cada lugar.
Quando o conteúdo é produzido com empatia, ele pode transformar a forma como exploramos o mundo.
O uso do TikTok nas viagens: inspiração ou dependência
Usar o TikTok para planejar viagens não é o problema. O desafio está em equilibrar inspiração e dependência.
Planejar tudo com base em vídeos curtos pode nos fazer perder a essência do que significa descobrir.
Viajar é sobre curiosidade, não sobre copiar. É sobre se permitir errar de caminho, conversar com desconhecidos e sentir o pulso da cidade. No entanto, estamos cada vez mais presos à ideia de que “viajar bem” é viajar como os outros e isso limita nossa própria percepção do mundo.
Além disso, a pressão para criar conteúdo durante a viagem é enorme. Muitos viajantes passam mais tempo gravando do que vivendo.
E, ironicamente, o que era para ser uma pausa da rotina vira mais uma extensão da vida digital.
O valor da autenticidade
A autenticidade se tornou um bem raro nas viagens modernas. O TikTok pode mostrar o caminho, mas só a vivência pessoal pode dar significado. Por isso, vale lembrar: um vídeo não substitui a experiência de estar presente.
Andar sem destino, provar comidas típicas locais, conversar com quem vive ali; são essas pequenas ações que revelam a alma de um lugar. E, curiosamente, são também esses momentos que não cabem em 15 segundos de vídeo.
A verdadeira transformação de uma viagem não está nas imagens que levamos, mas nas mudanças internas que ela provoca. Quando nos permitimos viajar com curiosidade e não com expectativa, abrimos espaço para que o inesperado nos surpreenda.
O futuro das viagens e o papel do TikTok
É inegável que o TikTok continuará sendo uma das principais ferramentas de inspiração para viagens.
Agências de turismo, companhias aéreas e até governos já investem pesado em campanhas dentro da plataforma.
O conteúdo rápido, emocional e visualmente atraente é uma poderosa vitrine.
Mas talvez o futuro esteja em usar o TikTok de forma mais consciente: como uma porta de entrada, não um roteiro definitivo.
Ele pode nos inspirar, mas cabe a nós transformar inspiração em experiência, saindo do digital para o real.
O equilíbrio está em usar a tecnologia como aliada, não como guia absoluto. Viajar deve continuar sendo um ato de descoberta, não de reprodução.
Conclusão
O TikTok trouxe uma revolução para o modo como vemos o mundo. Ele democratizou o acesso à informação, revelou lugares antes esquecidos e conectou pessoas de diferentes culturas.
Mas, como toda ferramenta poderosa, exige responsabilidade.
Quando confiamos apenas no que aparece na tela, corremos o risco de transformar o planeta em um cenário repetido, uma sequência de “spots” pré-aprovados.
Contudo, quando usamos o TikTok para viagens com consciência, ele pode ser o ponto de partida para aventuras incríveis — basta lembrar que a viagem começa quando você desliga o celular e se permite viver o momento.
No fim das contas, viajar não é sobre ver o que todo mundo vê, mas sobre sentir o que ninguém mais sentiu.
E, talvez, essa seja a experiência que vídeo nenhum jamais vai conseguir reproduzir.






